Taxistas apostam na mudança de comportamento para não se estressarem no trânsito

A maioria dos moradores de grandes cidades enfrenta congestionamentos por duas ou três horas diárias, entre sua casa e o trabalho, e já reclama de estresse. Mas ninguém conhece melhor os desafios das ruas do que os taxistas. Eles passam mais da metade da jornada tentando fugir de engarrafamentos, de olho nos comportamentos de risco de pedestres e outros motoristas e, quase sempre, enfrentando o mau humor generalizado. Nesse cenário, inteligente é quem não entra nesse clima de guerra e mantém a calma, a simpatia e, principalmente, o bom senso em benefício de todos, seja o passageiro ao lado, sejam as pessoas de fora do automóvel, ou ele próprio.

Dos cerca de 300 mil táxis em circulação pelo Brasil hoje, boa parte está em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os paulistanos têm a maior frota, com 34 mil veículos regularizados. Os cariocas vêm logo atrás, contando com 33 mil carros. E o normal é eles trabalharem doze horas por dia ou mais. Parece muito tempo em um ambiente e tensão constante, levando fechadas, ouvindo xingamentos e buzinadas, evitando situações que possam gerar infrações ou até acidentes, algo quase impossível de lidar. Mas muitos deles não só gostam da profissão que escolheram, como também aprenderam a não se aborrecer por qualquer problema e adotaram um comportamento mais saudável e responsável atrás do volante para não permitir que a estafa vença.

"Estou sempre preparado para aquiloque me contraria no trânsito, para não me aborrecer”, diz o mineiro Geraldo Pires Ferreira, 68, motorista em São Paulo há três décadas. Ele afirma que não perde a tranquilidade se é fechado ou se leva uma buzinada, por exemplo, e prefere sorrir a entrar em discussão. “O maior prejuízo é carregar aquele ódio com você. Eu não arquivo nada que não presta. Quando você releva uma situação tensa, desafia o problema.” Nem uma batida o faz perder a cabeça. “Nesses casos, a primeira providência é verificar se ninguém se machucou. Se está tudo bem, qualquer problema com o carro pode ser resolvido”.

Segundo Pires, o taxista que se deixa levar pelos problemas do trânsito não consegue trabalhar. “Primeiro, precisa gostar mesmo de dirigir. Depois, todos precisam aplicar as regras de trânsito. O pessoal conhece as leis, pois todos tiraram a CNH, mas na prática não usa o que aprendeu”, referindo-se ao uso do celular ao volante. “Como motorista, tenho cem por cento de responsabilidade, com o passageiro, com os pedestres, com os carros em volta”.

O paulistano Cauê da Silva Lino, 33 anos, herdou a profissão – e a tranquilidade – da família. Ele começou aos 19 anos e trabalha no mesmo ponto de seu pai. E diz que já se acostumou com o trânsito complicado da metrópole. “Eu era técnico de compressor de ar, trabalhava dentro de uma firma, um lugar fechado, quente, barulhento e sujo. Agora fico sentado dentro do carro, com ar condicionado, sossegado, nada aqui tira a minha paciência”, conta.

Trânsito melhor para todos

Filha e irmã de taxista, a paulistana Maria Valéria Hernandes Dias, 51 anos, decidiu encarar o volante ao ficar desempregada. Começou a trabalhar há um mês e ainda está se acostumando à rotina de trânsito das 6h às 19h30. Sempre gostou de dirigir, mas agora percebe que as pessoas precisam aprender a ser mais pacientes e a se colocar no lugar do outro. “O farol mal abre e já tem alguém buzinando”, lamenta. Para os mais nervosos, ela reserva a indiferença. “Entra por um ouvido e sai pelo outro. Se você for dar atenção pra todo mundo que xinga, é você que vai acabar se estressando”.

Fonte: Media Lab Estadão